Tempo seco aumenta alerta para o uso repetido de corticoides

Especialistas afirmam que, durante o período de estiagem, sintomas respiratórios podem ter diferentes causas e alertam que recorrer frequentemente a injeções ou comprimidos pode mascarar doenças e atrasar o tratamento adequado
(Imagem: Pexels)

O uso repetido de corticóides sistêmicos em pacientes com queixas respiratórias tem chamado a atenção de especialistas, especialmente durante o período de estiagem no Centro-Oeste. Nesta época do ano, marcada pela baixa umidade do ar e pelo aumento de doenças respiratórias e alergias, médicos alertam que a repetição frequente dessa classe de medicamentos pode mascarar doenças, retardar o diagnóstico correto e aumentar o risco de complicações à saúde.

Embora sejam importantes para controlar processos inflamatórios, os corticoides sistêmicos devem ser utilizados apenas com indicação e acompanhamento médico. Para o médico alergista, imunologista e otorrinolaringologista Márcio Niemeyer, é comum que pacientes procurem atendimento já esperando receber esse tipo de medicamento.

“Recebemos pacientes que chegam ao consultório perguntando se vão precisar de uma injeção ou de comprimidos de corticoide porque foi o que resolveu em uma crise anterior. Esse comportamento merece atenção. Sintomas semelhantes podem ter causas diferentes e o tratamento não deve se limitar ao alívio imediato.”

Segundo o especialista, durante os meses mais secos do ano, sintomas como obstrução nasal, coriza, espirros e tosse podem estar relacionados tanto a infecções virais quanto a doenças alérgicas, como rinite e sinusite, reforçando a importância do diagnóstico correto.

“Os corticoides são medicamentos muito eficazes quando utilizados corretamente, mas o uso repetido ou prolongado sem acompanhamento pode provocar aumento da pressão arterial e da glicemia, retenção de líquidos, ganho de peso, alterações de humor, redução da imunidade, maior risco de infecções e perda de massa óssea.

Dependendo da dose e do tempo de tratamento, também podem ocorrer alterações hormonais e supressão da função das glândulas adrenais”, detalha Niemeyer.

A preocupação ganha importância diante da elevada prevalência das doenças alérgicas. Dados da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai) indicam que cerca de 30% dos brasileiros apresentam algum tipo de alergia, enquanto a Organização Mundial da Saúde estima que esse percentual possa chegar a 50% da população até 2050.

Outro ponto que preocupa é a automedicação. Pesquisa do Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ) mostra que nove em cada dez brasileiros utilizam medicamentos sem prescrição.

Embora o levantamento não trate especificamente dos corticoides, o dado evidencia um comportamento que favorece o uso inadequado de medicamentos.

Diagnóstico correto evita o uso desnecessário

Márcio Niemeyer explica que pacientes que precisam utilizar corticoides sistêmicos diversas vezes ao longo do ano devem passar por uma investigação mais aprofundada.

“Se uma pessoa recorre aos corticoides repetidamente para tratar crises de rinite, sinusite ou outros problemas respiratórios, é importante investigar a causa. O objetivo não deve ser apenas controlar cada episódio, mas identificar o problema e reduzir, sempre que possível, a necessidade de novos ciclos desses medicamentos.”

O especialista ressalta que os corticoides de uso nasal possuem características diferentes dos medicamentos sistêmicos e, quando prescritos corretamente, apresentam baixa absorção pelo organismo. Já os corticoides administrados por via oral ou injetável exigem maior atenção quando utilizados repetidamente ou por períodos prolongados.

Além dos efeitos colaterais, o uso inadequado pode controlar temporariamente os sintomas sem resolver sua causa. Quadros recorrentes de obstrução nasal, coriza, espirros e crises respiratórias podem estar relacionados a rinite persistente, sinusite crônica, pólipos nasais ou outras doenças que exigem tratamentos específicos.

“Nem toda obstrução nasal é causada por alergia e nem todo quadro deve ser tratado com corticoides. Muitas vezes, aliviar apenas os sintomas atrasa o diagnóstico da doença que está provocando as crises.”

Além de evitar a automedicação, especialistas recomendam manter os ambientes limpos e ventilados, reduzir a exposição à poeira, mofo e ácaros e procurar atendimento médico sempre que os sintomas forem persistentes ou recorrentes.

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