A decisão do Ministério da Saúde de suspender temporariamente a vacinação com o imunizante contra a dengue produzido pelo Instituto Butantan foi acertada, na avaliação do médico sanitarista Gonzalo Vecina, fundador e ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Em entrevista ao Radar News, nesta terça-feira (9), ele afirmou que a medida é necessária até que sejam concluídas as investigações sobre duas mortes registradas entre pessoas vacinadas.
“A medida do ministério foi correta, suspendeu a vacinação porque provocamos duas mortes. Foi a vacina? Boa pergunta, vamos ver”, declarou.
O Ministério da Saúde anunciou a suspensão da estratégia de vacinação após identificar 42 casos de reações adversas graves e investigar dois óbitos entre mais de 500 mil pessoas imunizadas com a Butantan-DV desde janeiro deste ano.
Segundo Vecina, embora o número de casos seja proporcionalmente muito pequeno diante do universo de vacinados, a ocorrência de mortes exige uma resposta imediata das autoridades sanitárias.
“Muito pequenininho esse número, mas é inaceitável. Não podia morrer ninguém, então fizemos o certo”, afirmou.
Para o sanitarista, a suspensão da vacinação demonstra que os mecanismos de vigilância sanitária estão funcionando adequadamente. “O sinal mais importante dessa crise que estamos tendo com a vacina do Butantan é: o sistema funciona. Nós fizemos os testes com 16 mil pacientes, os testes foram muito positivos e agora, na ampliação do número de vacinados, nós verificamos um problema. E paramos a vacinação”, afirmou.
Vacina teve bons resultados nos testes clínicos
O sanitarista destacou que a vacina passou por estudos clínicos considerados robustos antes de receber aprovação da Anvisa. Os testes envolveram cerca de 16 mil voluntários, sendo 10.529 vacinados e 5.976 integrantes do grupo placebo.
Segundo ele, os resultados demonstraram elevada eficácia contra formas graves da doença.
Nas pessoas que receberam o imunizante, não houve hospitalizações relacionadas à dengue durante os estudos. Já entre os participantes que não tomaram a vacina, foram registradas oito internações. Os dados indicaram proteção de aproximadamente 85% contra a doença.
Vecina ponderou, porém, que os voluntários dos estudos foram selecionados sob critérios rigorosos e não apresentavam doenças pré-existentes relevantes.
Já na campanha de vacinação em larga escala, o público vacinado inclui pessoas com diferentes condições de saúde, como diabetes, hipertensão e outras comorbidades, o que torna essencial investigar as circunstâncias das mortes registradas.
Investigação vai definir futuro da vacinação
De acordo com o ex-presidente da Anvisa, a principal questão agora é determinar se existe relação de causa e efeito entre a vacina e os óbitos.
“É fundamental saber a resposta para essa pergunta e é o que vamos estudar a partir de agora”, disse.
As autoridades sanitárias devem analisar os 42 casos graves notificados e esclarecer as causas das duas mortes investigadas. Caso seja comprovado que os óbitos foram provocados pelo imunizante, a vacinação deverá ser interrompida definitivamente. Se não houver relação causal, a tendência é que a estratégia seja retomada.
Orientação para quem foi imunizado
Vecina também orientou as pessoas que receberam a vacina recentemente a ficarem atentas ao surgimento de sintomas considerados graves.
“Você que tomou a vacina nos últimos 21 dias fique atento. Sintomas como dor de barriga intensa, ânsia de vômito e vômitos intermitentes, sangramentos, febre alta (acima de 38º), devem levar você até uma unidade de saúde”, alertou.





