Presidente Lula viaja a Honduras em meio a tarifas de Trump e disputa na ONU

Viagem é vista como uma forma de "recado"

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) desembarcou em Honduras na terça-feira (8), para participar pela terceira vez no atual mandato da Cúpula da Comunidade de Países Latino-americanos e caribenhos (Celac). Lula levou a Tegucigalpa um discurso voltado a demonstrar repúdio às políticas comerciais e migratórias do presidente americano Donald Trump, assunto incontornável uma semana após o tarifaço global e diante da deportação em massa de imigrantes de volta aos países latinos.

Na semana passada, Lula disse que o Brasil não “bate continência” para nenhuma outra bandeira que o Brasil tomaria “medidas cabíveis” contra as tarifas de Trump. Ainda na semana passada, o Congresso Nacional aprovou um projeto de lei que permite ao Brasil suspender acordos comerciais, investimentos ou direitos de propriedade intelectual quando outro país ou bloco econômico adotar medida que prejudique a competitividade de seus produtos.

O vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que o Brasil não deverá lançar mão de retaliações, o que gerou reação negativa no Parlamento. A posição de Alckmin tem respaldo no Itamaraty, onde diplomatas defendem o diálogo para minimizar os prejuízos.

Nesta semana, representantes do Itamaraty e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) devem se reunir com autoridades americanas para discutir a tarifa de 25% aplicadas sobre as importações dos Estados Unidos de aço e alumínio.

A agenda de Lula ainda não está fechada, mas há expectativa de reuniões bilaterais com outros chefes de Estado.

Ainda sem certeza sobre a participação do ditador venezuelano Nicolás Maduro, fontes do Palácio do Planalto, não descartam completamente um encontro entre os dois.

Na Celac deste ano, o Brasil avalia propor a candidatura de uma mulher latino-americana para o cargo de secretária-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), sucedendo o português António Guter

Embora os EUA não façam parte da Celac, a pauta da “nova presença americana” na região deve dominar as atenções. No governo brasileiro, existe a interpretação de que Washington deixou para trás a “negligência benigna” no hemisfério e, sob Trump, já adota uma posição mais ostensiva de disputa geopolítica com a China, que avançou na região com a iniciativa Cinturão e Rota, também conhecida como a Nova Rota da Seda.

Um diagnóstico corrente no governo Lula é que as políticas de Trump para a região podem criar uma “crescente instabilidade” política nas Américas. Ele colocou em prática uma receita de deportações em massa, controle de rotas migratórias, combate ao narcotráfico, sanções aos regimes de esquerda (sobretudo Venezuela, Cuba e Nicarágua – batizada nos EUA de “tríade da tirania”) e tarifas comerciais. Com retórica ameaçadora, tenta forçar governos mais suscetíveis a romper relações com a China – como a ameaça de tomar o Canal do Panamá.

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