Anvisa apura 13 casos de perda de visão associados ao uso de canetas emagrecedoras

A condição é rara e pode causar perda repentina e permanente da visão
Reprodução de redes

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) acompanha 13 notificações de pacientes que apresentaram suspeita de Neuropatia Óptica Isquêmica Anterior Não Arterítica (Noiana) após o uso de medicamentos conhecidos como canetas emagrecedoras. A condição é rara e pode causar perda repentina e permanente da visão.

A agência, porém, destaca que a existência das notificações não comprova que os medicamentos tenham provocado a doença. A investigação considera as características clínicas de cada ocorrência e busca verificar se há, de fato, uma relação entre o tratamento e os sintomas apresentados.

Entre os casos registrados, cinco envolvem usuários de Ozempic, três de Wegovy, dois de Wegovy FlexTouch, dois de Rybelsus e um de Mounjaro.

Ozempic, Wegovy e Rybelsus são produzidos pela Novo Nordisk e possuem semaglutida em sua composição. O Mounjaro, fabricado pela Eli Lilly, tem como princípio ativo a tirzepatida.

Para analisar as notificações, a Anvisa considera fatores como a confirmação do diagnóstico, o período entre a utilização do medicamento e o aparecimento dos sintomas, doenças preexistentes, outros remédios utilizados pelo paciente e eventuais explicações alternativas para o quadro.

Condição pode causar perda permanente da visão

A Noiana está relacionada à interrupção ou redução do fornecimento de sangue para a região anterior do nervo óptico. Trata-se de uma doença considerada multifatorial, com maior ocorrência associada a fatores como idade superior a 50 anos, hipertensão, diabetes, colesterol elevado, doenças cardiovasculares, tabagismo e, principalmente, apneia obstrutiva do sono.

Em junho de 2025, a Anvisa já havia emitido um alerta sobre a possibilidade de Noiana como evento adverso muito raro relacionado à semaglutida. Na ocasião, a agência determinou que o risco fosse incluído nas bulas dos medicamentos que contêm essa substância.

A orientação é procurar atendimento médico imediatamente diante de uma perda repentina da visão ou de uma piora rápida do quadro visual.

Especialista aponta possível associação, mas não confirma causa

Para Clayton Macedo, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e diretor de comunicação da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), os dados disponíveis indicam um possível sinal de associação entre os medicamentos agonistas de GLP-1 e a Noiana. Ainda assim, segundo ele, as evidências não permitem afirmar que os remédios sejam a causa direta da doença.

Um trabalho publicado na revista Diabetes Care, da Associação Americana de Diabetes, identificou uma taxa de 18 casos de Noiana para cada 100 mil pessoas-ano entre usuários de medicamentos da classe dos GLP-1. Entre pacientes que utilizavam medicamentos da classe DPP-4, foram registrados 7,2 casos na mesma referência.

Por ser uma ocorrência considerada muito rara, Macedo afirma que os resultados não justificam uma recomendação geral para interromper ou evitar o uso desses medicamentos por pessoas com diabetes ou obesidade. A escolha do tratamento, segundo ele, deve levar em conta individualmente os possíveis benefícios e riscos.

Fabricantes acompanham os relatos

A Novo Nordisk informou que mantém o monitoramento contínuo de possíveis eventos adversos e afirmou que a segurança dos pacientes é uma prioridade. A empresa também contesta a existência de evidências suficientes para estabelecer uma relação de causa e efeito entre a semaglutida e a Noiana.

A farmacêutica citou uma análise de estudos clínicos que reuniu mais de 83 mil pacientes-ano de acompanhamento. De acordo com a empresa, foram observados poucos casos confirmados por oftalmologistas e não foi constatado aumento da incidência da doença entre os participantes tratados com semaglutida.

A Eli Lilly, responsável pelo Mounjaro, não havia apresentado posicionamento até a publicação do levantamento.

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