A cada quatro horas, acontece um caso de violência sexual contra vulnerável em Goiás. De acordo com os números publicados pela Secretaria de Segurança Pública (SSP), 793 menores entre 0 e 14 anos foram vítimas desse tipo de crime entre janeiro e abril de 2025. Na verdade, o índice disponível em 2025 aumentou em relação à média possível de ser obtida entre 2018 e 2024 no estado, quando foram registrados 9 mil casos. O resultado neste intervalo de 9 anos foi uma média de quatro ocorrências por dia, uma a cada seis horas.
Para além dos casos que geram a incômoda estatística, esse tipo de crime hediondo acrescenta uma camada a mais na dor de crianças e adolescentes atingidos e suas famílias: a revitimização dos ofendidos. A condição já é consenso entre especialistas: ao percorrer as etapas necessárias à formação da prova com vistas à repressão desse tipo de crime, a vítima é obrigada a repetir o relato dos fatos e, com isso, revive por várias vezes o trauma.
A necessidade de relatar o fato se segue por diversas ocasiões sucessivas: na lavratura do Boletim de Ocorrência, no Termo de Declarações a ser juntado no Inquérito Policial, nas formalidades para o Exame do Corpo de Delito e na realização de perícias físicas e psiquiátricas. Assim, os próprios procedimentos de persecução penal configuram-se em novas violências, que repetem o potencial agressivo do crime quanto ao impacto psíquico e emocional que produzem.
Foi para minorar os efeitos traumáticos resultantes dos procedimentos convencionais da persecução penal em casos de abuso sexual contra vulneráveis que surgiram, no Rio Grande do Sul, os Centros de Referência em Apoio Infanto-juvenil (CRAIs). Em essência, a ideia é simples: integrar, em uma única instalação física, os serviços na área da Segurança e Saúde Públicas, de forma que um único depoimento sirva de base a todos os procedimentos necessários, sobretudo, a promover a persecução penal do agressor.
Fisicamente anexados a hospitais públicos em sete cidades gaúchas, o modelo do CRAI foi implementado também em Aracaju-SE. Os números dão uma ideia da importância da iniciativa. Em Porto Alegre, onde surgiu a iniciativa – em 2001 -, são realizados, em média, 150 atendimentos mensais. Em Pelotas, onde uma unidade foi inaugurada em 2022, o número de atendimentos já ultrapassou a barreira dos 1.100 registros.
CRAI em Goiás
A relevância da atuação dos CRAIs já começa a chamar a atenção da opinião pública em Goiás, onde a jornalista Arianne Cândido, pré-candidata a deputada estadual pelo União Brasil (UB), defende a implantação dessa iniciativa no estado. “As estatísticas referentes aos crimes sexuais contra crianças e adolescentes em Goiás são estarrecedoras. Endurecer o combate é necessário e louvável, mas precisamos aumentar a qualidade do serviço que oferecemos às vítimas. Sem esse auxílio, tudo o que fizermos para reprimir o abuso será em vão”, frisa.
Arianne salienta a relação custo-benefício da iniciativa. “Você não precisa reinventar a roda. Os serviços já existem em órgãos distintos tanto na área da Saúde quanto da Segurança: basta ter um espaço físico onde a Polícia Civil, a perícia, as equipes de psicólogos, médicos, psiquiatras, os serviços ambulatoriais e tudo o que a vítima precisa estão lá, prontos para fazer um atendimento integrado”, explica.
Para Cândido, o aspecto mais importante da implantação do CRAI em Goiás seria evitar a revitimização. “A vítima vai para o CRAI, dá o seu depoimento uma única vez, faz os exames e procedimentos que precisa fazer uma única vez, sem ter que reviver nada pelo que passou. Ao mesmo tempo, já inicia o tratamento psicológico e medicamentoso que vai ampará-la. Essa iniciativa é mais que uma política pública. É uma questão de humanidade”, conclui a jornalista.





