Um relato de força, fé e superação tem mobilizado milhares de internautas e chamado a atenção de especialistas em saúde. A história da professora Elisflavia Rodrigues da Assunção Guimarães, de 37 anos, ganhou repercussão nas redes sociais após a divulgação de vídeo do parto de uma gestação de alto risco, já que foi diagnosticada, durante o pré-natal, com um câncer em estágio avançado no intestino já com metástase nos ovários.
A descoberta da doença ocorreu durante o pré-natal, conduzido pelo médico ginecologista obstetra da Hapvida, Clayton Souza Fortunato Filho, no Hospital América, em Goiânia. Segundo o especialista, o caso exigiu rápida tomada de decisão e atuação multidisciplinar desde os primeiros sinais de alerta.
“Era uma gestação de alto risco, com hipertensão e diabetes gestacional. Por volta das 29 semanas, identificamos um aumento importante do volume abdominal e cistos ovarianos volumosos. Solicitamos exames mais detalhados, que revelaram um tumor de sigmoide com metástases ovarianas, caracterizando um câncer já em estágio avançado”, explica o médico.
Diante do diagnóstico, Elisflavia foi imediatamente encaminhada para acompanhamento oncológico. A estratégia inicial era prolongar a gestação por pelo menos 34 semanas para garantir maior segurança ao bebê antes do início do tratamento contra o câncer. No entanto, a evolução clínica da paciente exigiu uma mudança de planos.
“Ela apresentou piora significativa, com dificuldade para se alimentar, acúmulo de líquido abdominal (ascite) e necessidade de procedimentos de alívio. Diante desse cenário, discutimos o caso com oncologistas e a gestão nacional, e optamos pela realização antecipada do parto, com 31 semanas e 3 dias”, detalha o obstetra.
A cesariana, considerada de alta complexidade, mobilizou uma força-tarefa dentro do hospital. “Era uma cirurgia desafiadora. Montamos uma equipe com cirurgião oncológico, garantimos UTI materna e neonatal, além de todo preparo prévio para o nascimento da bebê, como maturação pulmonar e neuroproteção”, afirma Clayton.
Apesar dos riscos, o procedimento foi bem-sucedido. Durante a cirurgia, além do nascimento de Olívia, a equipe conseguiu realizar uma redução parcial da massa tumoral, o que deve contribuir para o tratamento oncológico da paciente.
Enquanto a equipe médica lidava com decisões técnicas complexas, Elisflavia vivia, do outro lado, uma montanha-russa emocional, marcada por medo, fé e, principalmente, foco na filha. “No início, foi muito difícil, muita aflição e angústia. A incerteza era grande, mas minha maior preocupação sempre foi a Olívia. Eu só pensava nela o tempo todo”, relata.
Ela conta que o momento do diagnóstico foi especialmente delicado para ela e o marido. “Não foi fácil entender o que estava acontecendo até termos a confirmação. Foi muito complicado!”
Mesmo diante da gravidade do quadro, que incluía riscos como hemorragias severas, necessidade de intubação e até possibilidade de não sobreviver à cirurgia, Elisflavia afirma que estava tranquila e confiante antes do parto. “Eu não sabia de tudo que poderia acontecer, e hoje vejo que isso foi até melhor. Evitou mais ansiedade. Todos dizem que eu estava muito tranquila, e realmente estava. Eu confiava muito em Deus e na equipe médica”, afirma.
A confiança nos profissionais foi um dos pilares para enfrentar o processo. “O Clayton foi um anjo na minha vida. Desde o início transmitiu muita segurança. Depois da descoberta, ele e os oncologistas continuam me dando essa tranquilidade. No dia do parto, eu percebi toda a mobilização do hospital e fiquei em paz.”
Essa mobilização envolveu não apenas estrutura técnica, mas também acolhimento emocional. Duas psicólogas obstétricas foram acionadas para acompanhar Elisflavia e sua família, e até mesmo uma fotógrafa voluntária participou do momento, registrando o nascimento de Olívia.
“Foi tudo muito humano. Desde a hora que cheguei até hoje, me sinto acolhida. As pessoas me abraçam, me dão força. Isso não tem preço”, diz. A pequena Olívia nasceu prematura, mas com boa evolução clínica. Internada na UTI neonatal, a bebê segue ganhando peso e avançando no desenvolvimento esperado para a idade gestacional, que é de 34 semanas. Depois disso, ela irá para a enfermaria e, após 24 horas de observação, poderá ir para casa com os pais.
“Ela está bem, perfeita. Agora está aprendendo a mamar, que é o próximo passo. Os médicos dizem que é normal, e acredito que logo estaremos em casa”, conta a mãe.
Nos dias seguintes ao parto, Elisflavia também apresentou melhora significativa e a recebeu, o que trouxe ainda mais esperança à família.
Para o obstetra, o caso reforça a importância do acompanhamento pré-natal rigoroso e da atuação integrada entre especialidades. “Situações como essa mostram como o diagnóstico precoce e o trabalho em equipe são fundamentais para salvar vidas, tanto da mãe quanto do bebê.”
Além da comoção gerada nas redes sociais, a história levanta um debate relevante sobre os desafios enfrentados por mulheres diagnosticadas com câncer durante a gestação (uma condição rara) que exige decisões delicadas e suporte contínuo.
A história, que começou com incertezas, hoje se transforma em símbolo de resistência, cuidado e esperança. Para Elisflavia, o sentimento agora é de gratidão. “Minha avaliação é a melhor possível. Foi uma mobilização maravilhosa. Eu sei que todos deram o melhor naquele dia. O que posso fazer é orar por cada um deles. Não tem como pagar o que fizeram por mim. ”





